Sons pela Natureza transforma paisagem rural de Orleans em espaço de encontro cultural

Realizado em Rio Hipólito, projeto reuniu música, caminhada até a cachoeira, cultura, ancestralidade e conexão com a natureza em uma experiência fora dos espaços tradicionais de apresentação artística

A cultura nem sempre precisa de palco, cortina ou sala de espetáculos. Em Rio Hipólito, comunidade rural de Orleans, a paisagem natural tornou-se parte da própria experiência artística durante a primeira edição do Sons pela Natureza, realizada no dia 17 de outubro.

A iniciativa integra o projeto Kombi Cultura Itinerante – Sons pela Natureza, proposto por Joelson Coan e contemplado pelo Município de Orleans com recursos do Ministério da Cultura e do Governo Federal, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).

O projeto nasceu com uma ideia significativa para a realidade cultural dos pequenos municípios: deslocar as ações para além do centro urbano e aproximá-las das comunidades, criando outros lugares possíveis para o encontro entre artistas e público.

 Em meio à vegetação, aos caminhos e às águas da região, a programação começou com o Sons pela Cachoeira, uma caminhada que conduziu o público até um dos cenários naturais da comunidade. Mais do que chegar a um destino, o percurso integrou a proposta do encontro: desacelerar, observar o território e experimentar a música em diálogo com o ambiente.

A programação seguiu ao longo do dia com almoço preparado no próprio local e apresentações de músicos e rezadores convidados. Entre as atrações estiveram Txana Helena e Tainara Takua, Guarani Mbya, ampliando a presença da ancestralidade e de diferentes expressões culturais dentro da experiência.

Um dos aspectos mais interessantes da proposta está justamente na relação construída entre arte e lugar. A natureza não aparece apenas como cenário para uma apresentação musical. Sons, água, vegetação, caminhada e convivência passam a integrar aquilo que o público vivencia. A fronteira entre assistir e participar torna-se menos rígida.

Essa relação também pode ser percebida nas imagens do encontro: instrumentos musicais dividem espaço com a madeira e a vegetação, enquanto o público percorre trilhas em grupo. A própria identidade visual do festival reafirma três palavras que ajudam a sintetizar sua proposta: arte, cultura e consciência.

Cultura que percorre outros caminhos

Levar uma ação cultural a uma comunidade rural também coloca em discussão uma questão importante para as políticas culturais: onde a cultura acontece?

Durante muito tempo, equipamentos culturais localizados nas regiões centrais concentraram grande parte das programações. Projetos itinerantes ou realizados em comunidades mais afastadas ajudam a construir outro movimento. Em vez de esperar que o público se desloque até a cultura, é a ação cultural que percorre o território.

Nesse sentido, a Kombi Cultura Itinerante assume também um caráter simbólico. Mais do que um veículo ou elemento visual do projeto, representa a possibilidade de circulação — de artistas, ideias e experiências.

A realização do Sons pela Natureza com recursos da Política Nacional Aldir Blanc também demonstra, na prática, uma das possibilidades das políticas públicas de fomento: transformar recursos destinados à cultura em ações que alcançam diferentes territórios e aproximam a produção artística das comunidades.

A primeira edição do projeto deixa ainda outra percepção: iniciativas culturais de pequena escala podem produzir encontros significativos justamente pela proximidade que estabelecem entre as pessoas e o lugar.

Em Rio Hipólito, por algumas horas, trilha, cachoeira, música, ancestralidade, alimentação e convivência fizeram parte de uma mesma experiência.

E talvez esteja aí uma das imagens mais bonitas deixadas pelo Sons pela Natureza: a cultura não precisa apenas ocupar espaços. Ela também pode nos fazer enxergá-los de outra maneira.

SOBRE A AUTORA

Juliana Natal da Silva é mestra em Educação pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), gestora e produtora cultural, artista visual, arte-educadora, pesquisadora, curadora e capacitadora técnica, com 32 anos de atuação nas áreas de Arte, Educação e Cultura. Sua trajetória reúne experiência em gestão pública da cultura, elaboração, análise e acompanhamento de projetos culturais, assessoria técnica, formação de agentes culturais e políticas públicas de fomento. É também colunista do Cultura em Cena.

 

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WhatsApp: (48) 99624-8888  |  E-mail: [email protected]  |  Instagram: @nataljuliana

 

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