Alguns lugares deixam de cumprir a função para a qual foram construídos, mas não deixam de carregar histórias. É a partir desse olhar que a artista visual Andressa Gomes Flor apresenta a exposição Ruínas: Fragmentos Poéticos, na Galeria de Arte Ernesto Meyer Filho, da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em Florianópolis.
A mostra reúne trabalhos inspirados em três patrimônios ligados à história da mineração de Criciúma: a Caixa de Embarque de Carvão, a Mina Modelo Caetano Sônego e a Ponte de Ferro. A artista utiliza fotografia, serigrafia, cerâmica e instalação para transformar esses espaços em matéria artística e poética.
A memória inscrita nos lugares
A história de Criciúma está profundamente relacionada à mineração do carvão. A atividade modificou a economia, a paisagem e a formação social da região, deixando marcas que permanecem mesmo depois que determinadas estruturas perderam sua função original. Na exposição, esses vestígios ganham outro significado. Não são apresentados apenas como registros de uma atividade econômica do passado, mas como lugares capazes de guardar experiências, relações de trabalho e memórias coletivas.
A proposta nos leva a uma questão importante: o que transforma uma construção antiga em patrimônio? Não é somente sua arquitetura. É também aquilo que aconteceu naquele espaço, as pessoas que passaram por ele, o trabalho realizado, as relações construídas e as lembranças que permanecem associadas ao lugar.
“Preservar não significa apenas conservar paredes- Patrimônio cultural também é uma forma de contar quem fomos”.
Ao registrar artisticamente estruturas relacionadas à mineração, Ruínas: Fragmentos Poéticos cria outra possibilidade de preservação. A fotografia guarda um vestígio; a cerâmica recria formas; a instalação reorganiza fragmentos. A arte oferece novos sentidos àquilo que, em um primeiro olhar, poderia ser percebido apenas como antigo, deteriorado ou abandonado.
E essa reflexão ultrapassa Criciúma. Cada município possui construções, objetos, fotografias, festas, histórias e saberes que ajudam a explicar sua identidade. Muitas vezes convivemos diariamente com esses elementos sem perceber seu valor. Somente diante da possibilidade de desaparecimento começamos a compreender aquilo que representavam. Para nós, que vivemos no Sul de Santa Catarina, essa discussão se torna ainda mais próxima.
Nossa história está registrada não apenas nos documentos oficiais, mas também nas paisagens, nas construções e nas marcas deixadas pelas pessoas que vieram antes de nós. A arte possui a capacidade de direcionar novamente nosso olhar para esses lugares e revelar aquilo que a rotina tornou quase invisível. Ruínas: Fragmentos Poéticos nos lembra que uma ruína não representa necessariamente o fim de uma história.
Ela pode ser também seu vestígio, uma presença do passado que permanece na paisagem e continua produzindo significados. Talvez preservar a memória seja justamente isso: permitir que os fragmentos do passado continuem contando quem somos no presente.
Juliana Natal
Mestre em Educação.
Produtora Cultural.
Arte-Educadora.
Artista Plástica.
Cartomante. Terapeuta artística. Agendamentos e informações: (48) 996248888
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