PNAB no Sul: entre atrasos, disputas e a urgência de maturidade no setor cultural

Estamos realmente comprometidos com a construção da cultura ou estamos apenas preocupados em garantir espaço dentro dela?

A cultura, quando bem conduzida, transforma territórios, fortalece identidades e constrói futuro. Mas quando há ruídos no caminho, ela também revela fragilidades que precisam ser enfrentadas com responsabilidade.

É nesse ponto que nos encontramos ao observar a implementação da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) em alguns municípios da região Sul. O que deveria representar avanço e fortalecimento da cultura tem esbarrado, em muitos casos, em atrasos, falta de clareza nos processos e dificuldades na condução das políticas públicas.

Não se trata de um problema isolado. O que se percebe é um cenário que envolve desde falhas técnicas até ausência de planejamento e organização. Editais travados, cronogramas indefinidos e processos que não avançam acabam gerando insegurança entre agentes culturais e colocando em risco a credibilidade da própria política pública.

Imagem produzida na IA por Juliana Natal

Mas é preciso dizer: o problema não está apenas na gestão.

Há também uma questão que precisa ser encarada com coragem dentro do próprio setor cultural. Um comportamento que tem se repetido e que, silenciosamente, enfraquece aquilo que deveria ser coletivo.

Tenho observado — e não é de hoje — situações em que agentes culturais deixam de olhar para seus próprios projetos para direcionar sua atenção ao trabalho do outro. Questionam avaliações, criticam pareceristas, comparam resultados. E, em alguns casos, mesmo sendo contemplados mais de uma vez, ainda assim demonstram insatisfação, buscando entender por que o outro teve melhor desempenho.

“Isso não é crítica construtiva. Isso é falta de consciência”.

A cultura não se constrói a partir da comparação. Ela se constrói a partir da qualidade do que cada um entrega.

Quando o foco deixa de ser o fazer cultural e passa a ser a disputa por espaço, perde-se o essencial. A cultura deixa de ser um campo de construção coletiva e passa a ser tratada como uma competição por recurso público.

E isso precisa ser dito com clareza: isso não fortalece a cultura — enfraquece.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar outro ponto igualmente preocupante. Há gestores assumindo responsabilidades além da sua capacidade técnica ou estrutural. Municípios sem equipes preparadas, sem domínio dos processos e sem organização interna acabam comprometendo a execução dos recursos.

Boa vontade não substitui preparo. E assumir mais do que se pode dar conta também é um problema. Quando esses dois movimentos se encontram — gestores despreparados de um lado e agentes culturais imaturos do outro — o resultado é um só: a cultura não avança.

E isso é grave!

Porque a PNAB não é apenas mais um edital. Ela representa uma política pública permanente. E, se não for conduzida com responsabilidade, pode trazer consequências sérias, como a perda de recursos e o enfraquecimento do setor cultural nos municípios. Diante disso, talvez seja hora de parar e refletir com mais honestidade.

Estamos realmente comprometidos com a construção da cultura ou estamos apenas preocupados em garantir espaço dentro dela? Estamos fazendo projetos com qualidade ou apenas esperando aprovação? Estamos fortalecendo o coletivo ou alimentando disputas individuais?

A cultura exige maturidade. Exige responsabilidade. Exige consciência.

E isso vale para todos! Para gestores, que precisam se qualificar, se organizar e conduzir processos com transparência e responsabilidade. E para agentes culturais, que precisam olhar para o próprio trabalho, buscar excelência no que fazem e compreender que o crescimento do setor depende da soma — não da disputa.

Porque cultura não se constrói sozinho. E muito menos contra o outro.

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