Desengavetar projetos, descobrir seu potencial criativo e a capacidade de empreender no campo são alguns dos objetivos do programa de empreendedorismo feminino da Epagri, Flor-E-Ser, que está capacitando mulheres rurais em todo o Estado para transformar sonhos em negócios.
Na Epagri em Joinville, o programa teve início em 14 e 15 de abril com palestras sobre protagonismo feminino na agricultura familiar, gestão, práticas integrativas e relato de ex-aluna que teve a vida transformada pelo Flor-E-Ser.
“Eu aprendi muita coisa no curso, muita coisa mesmo! O curso revira você, vira você do avesso. Ele procura tudo que você tinha guardado e até o que você esqueceu e coloca pra fora, seja pelas capacitações, pelas aulas, pela convivência com as outras mulheres. O nosso grupo ainda hoje é vivo. Todas se comunicam e se ajudam”, conta Marcenilda do Rocio Rocha, 58 anos, de Itapoá.
Ela participou do Flor-E-Ser em 2022 e hoje produz panificados em sociedade com uma vizinha, que também participou do curso, para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal.
“Antes do curso, eu não teria essa coragem, de colocar produto à venda, ir atrás de licitação para entregar para a merenda escolar, fazer o produto direitinho como pedem, atender todas as exigências. Antes, eu nem teria coragem de dar entrevista. Para mim, o Flor-E-Ser está vigente, tudo que aprendi ali eu trago para minha vida”, se emociona.

Este ano, 28 produtoras rurais de 12 municípios do Litoral Norte participam da capacitação, que segue até julho, em encontros alternados a cada duas semanas. Após as boas-vindas no Centro de Treinamento de Joinville (Cetreville), a extensionista social e líder do Programa Capital Humano e Social para a região, Adriane Mendonça, falou sobre as mudanças sociais das mulheres no contexto histórico-cultural e a relevância das atividades desempenhadas por elas nas propriedades rurais, tanto na produção agrícola, quanto na tomada de decisões e sucessão familiar.
Já a líder do Programa de Gestão de Negócios e Mercados (GNM), Fabiana Moratelli, apontou as áreas de atuação do programa, como compras institucionais, cursos profissionalizantes e conceitos como Indicação Geográfica (IG) para agregar valor aos produtos. Ela também chamou a atenção para a expansão do setor de turismo rural e a importância de organizações coletivas para a agricultura familiar, além de relatar sua vivência no contato com produtoras que já estão realizando o sonho de serem donas do próprio negócio.
“São várias as áreas produtivas em que a mulher já é protagonista. Atendo mulheres que herdaram o sítio dos pais e hoje empregam os maridos, mulheres que ouviram a demanda dos filhos e estão buscando legalizar seu negócio, mulheres antenadas com a demanda crescente do PNAE, jovens que buscam tendências do mercado para projetos futuros e mulheres maduras que, durante a vida toda, estiveram ao lado dos maridos e da família e agora querem empreender à sua maneira. Espero, em breve, auxiliar na elaboração dos projetos do Litoral Norte, tendo em vista o quão rico é este território”, afirma.
Produção sustentável em meio à natureza preservada
Uma das participantes mais jovens da nova turma é a técnica agrícola e produtora de pitaias Giani Schulz, 21, de Joinville. Ela toca a roça com a mãe, Gláucia, na propriedade que reduziu a área dedicada à piscicultura para apostar no cultivo da fruta, que atrai milhares de turistas todos os anos no Festival de Pitaias, durante o verão. Em 2022, o Vale das Pitaias, que também conta com trilha ecológica e avistamento de pássaros, ingressou na Rota Caminhos de Dona Francisca, ano em que a rota foi certificada pelo Ministério do Turismo.
Assim como a mãe, que já participou do Flor-E-Ser, Giani pretende desenvolver um projeto para aperfeiçoar ainda mais a atividade. “Entrei no curso para sair do comodismo, senão acabamos ficando só na manutenção da propriedade e o negócio não vai para frente. Estou pensando em algo na área de vendas ou investir em uma câmara fria para as frutas, que sofreram bastante com o calor intenso”, conta.
No caso de Judite Krazewsky Daniel, 52, o curso Flor-E-Ser é uma oportunidade de trocar experiências com outras produtoras, já que nem sempre trabalhou no setor agrícola. Ela é formada em Administração e trabalhou 14 anos em uma empresa metalúrgica de Corupá, mas em 2011 abandonou a carreira para trabalhar com o marido na produção de plantas ornamentais. Entre as espécies plantadas estão a Bromélia Imperial, a Ráfia e a Strelitzia augusta. Toda a produção é vendida para atacados, floriculturas e distribuidores da região, e parte da produção é mantida em sua propriedade, cercada pelo esplendor da Mata Atlântica.

“Eu nem sabia da oportunidade de desenvolver um projeto de vida, descobri no primeiro dia do curso e fiquei bastante feliz. Vou conversar com os técnicos da Epagri para saber das possibilidades de meu negócio, já que produzo em terras de terceiros, e as opções de investimento no local são mais limitadas”, explica.
Bianca quer proporcionar bons momentos para a comunidade
A joinvilense Bianca da Silva Speck, 47, trabalhava na pesca, em salga de camarão, mas quando casou com José Donizete, se mudou para Itapoá e foi morar no campo, onde produzem de tudo um pouco: mandioca, batata-doce, ponkan, gado de corte e cana. Das sobras da cana ela faz melado e do leite de vaca, um delicioso doce de leite cozido lentamente no tacho do fogão à lenha, que tem bastante saída na Feira da Agricultura Familiar do município.

Toda essa atividade, aliada à grande área de mata nativa, Bianca quer transformar em atração não só para visitantes adeptos do ecoturismo, mas também para a comunidade, especialmente, os mais jovens. “Eu quero aprender mais sobre turismo rural. Eu quero aprender a deixar o espaço mais bonito. Aqui eu abro espaço para os jovens, quem quiser jogar, a gente tem um campo. Eu cedo para eles virem jogar, brincar, comer um pastel, tomar um caldo de cana, brincar, se divertir”, revela.
Ela conta que já tem parceria com a escola da comunidade de Saí Mirim a em projetos educacionais e recreativos, que despertam nas crianças o amor pela natureza e pelos animais e mostram como o alimento é produzido antes de chegar à mesa. “As crianças vêm conhecer o sítio, a gente não cobra nada, vão ver as vaquinhas, andar pelo campo, ver eu fazendo doce de leite e cada um vai levar seu potinho com doce pra eles verem como é gratificante fazer, conhecer e aprender”, revela.
Bianca e o marido já começaram a investir no turismo rural de forma intuitiva. Eles abrem a porteira para a comunidade conhecer as belezas da mata preservada e alugam um galpão para festa de igreja, aniversários, piqueniques e acampamentos. “Acho que, hoje em dia, está faltando mostrar o valor da simplicidade. Claro que o sítio precisa ter manutenção, beleza, mas também tem que ter acolhimento, acolher a comunidade, a terceira idade, promover um bingo, um arrasta-pé, algo que proporcione boas lembranças”, acredita.
A propriedade também tem dois açudes, onde os visitantes podem pescar, levar pra casa ou preparar o pescado ali mesmo, com a ajuda dos anfitriões. O sonho do casal é fazer chalés para que o pessoal que gosta de pesca noturna não tenha que pegar a BR para voltar para casa. E ainda terem a chance de provar os sabores inigualáveis que os produtos do campo proporcionam, preparados por mãos experientes e habilidosas, de quem dedicou a vida a produzir alimentos e fazer as pessoas felizes.
“Tem gente que mora em Itapoá e nem sabe que tem área rural. Eles não conhecem o Saí Mirim, não desfrutam dessas áreas, eles poderiam pousar aqui, eu ofereço café, se quiserem almoçar, faço um almoço bem tradicional com mandioca, batata doce, galinha caipira, uma carninha assada bem campeira. Eu espero florescer junto com as meninas durante o curso e expandir com emoções, com memórias boas, é isso que me motiva”.
A próxima etapa do curso Flor-E-Ser acontece no Cetreville nos próximos dias 28 e 29 de abril.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc










