Gil Galante: o artista se vai, a arte permanece

Suas obras ultrapassaram o espaço do ateliê e passaram a fazer parte da paisagem, da memória e da história de nossa região

Uma homenagem a um homem inigualável que fez da liberdade, da madeira e da própria vida matéria para sua arte. Existem pessoas que passam pela nossa vida. E existem aquelas que deixam marcas. Gil Galante era assim. Nesta semana, a cultura catarinense se despediu de um de seus artistas, mas eu me despedi também de um amigo. E talvez seja justamente por isso que escrever sobre ele seja tão difícil. Como resumir em algumas palavras alguém que foi tão singular? Gil era uma pessoa inigualável. Artista não apenas pelo que produzia, mas pela maneira como escolheu viver. Havia nele uma inquietude, uma curiosidade e uma liberdade que transbordavam para sua obra.

Mas ele continuava experimentando. A madeira que se transformava em escultura passou também a produzir som. Gil entrou no universo da luthieria e começou a construir violões artesanalmente, pesquisando inclusive as possibilidades sonoras de madeiras brasileiras como canela-preta, peroba e cedro. Talvez isso diga muito sobre quem ele era: quando parecia ter encontrado uma linguagem, Gil encontrava dentro dela um novo caminho. Um legado que permanece Em 2021, uma galeria virtual dedicada à sua produção reuniu 36 esculturas. Na ocasião, Gil explicou que utilizava aquilo que vivia e havia vivido para produzir sua arte.

Queria que suas peças chegassem mais longe e pudessem também inspirar outros artistas. E talvez esteja aí uma das maiores dimensões de seu legado. Gil deixou esculturas, monumentos, instrumentos e obras. Mas deixou também uma maneira de compreender a existência artística. Em uma entrevista concedida em 2019, falou sobre seu desejo de deixar um trabalho que pudesse servir de referência para alguém e sobre sua crença de que a arte pode transformar e agregar valor à sociedade.

Hoje, suas próprias palavras ganham outro significado. Porque o legado de um artista não termina quando suas mãos deixam de criar. Ele permanece nas obras que outras mãos tocarão. Nos espaços onde suas esculturas continuarão sendo vistas. Nos instrumentos que continuarão produzindo som. Nos artistas que conheceram seu trabalho. Nas pessoas que compartilharam sua amizade. E nas histórias que continuarão sendo contadas sobre ele. Para mim, permanecerá também a lembrança do amigo. Gil Galante foi único. Foi livre. Foi inquieto. Foi artista. E talvez a melhor homenagem que possamos lhe fazer seja justamente aquilo que ele próprio defendia: valorizar nossos artistas enquanto suas obras continuam falando conosco.

O Gil que eu conheci Falar do artista Gil Galante é falar de uma trajetória imensa. Mas falar do Gil que eu conheci é lembrar, antes de tudo, de uma pessoa sempre receptiva, carismática, alegre e de uma simplicidade que encantava quem estivesse por perto. Guardo na memória muitos momentos em sua casa, as rodas de violão, Gil cantando, as conversas, os encontros…Tive também a oportunidade de fazer a curadoria de sua arte em diferentes momentos e acompanhar de perto um pouco da dimensão de sua criação. Porque Gil transitava pelas linguagens com uma naturalidade impressionante. Esculpia, construía instrumentos, fazia joias como ninguém. Era daqueles artistas para quem criar parecia fazer parte da própria existência. Para mim, porém, ele ficará para sempre também como o artista dos monumentos.

Suas obras ultrapassaram o espaço do ateliê e passaram a fazer parte da paisagem, da memória e da história de nossa região. Hoje, entre tantas lembranças, existe uma que se tornou ainda mais preciosa. Tenho uma escultura de um mineiro, feita em ferro, que recebi das próprias mãos de Gil. Antes era uma obra de um amigo querido. Agora tornou-se também presença, memória e afeto. Ainda é difícil acreditar que Gil partiu. Sua despedida foi inesperada demais para quem estava acostumado a encontrá-lo sempre tão cheio de vida, música, histórias e criação. Mas talvez seja esse o privilégio que a arte concede aos grandes artistas: eles partem, mas deixam pedaços de si espalhados pelo mundo. Gil deixou os seus. Nas esculturas. Nos monumentos. Nas joias. Nos instrumentos. Nas músicas. Nas histórias. Nas pessoas que tiveram o privilégio de conhecê-lo. E eu tive esse privilégio. Obrigada, meu amigo. Sua arte permanece. E você também.

Fonte | Juliana Natal

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